
Nesse texto trabalharemos acerca da origem etimológica da hermenêutica a partir do texto de Richard Palmer. Os termos hermeneuein e hermeneia, de acordo com Palmer são comumente traduzidos por interpretar e interpretação. Para compreendermos a origem etimológica da hermenêutica é necessário entender as origens e orientações significativas de hermeneuein e hermeneia.
Para Palmer, a palavra grega hermeios fazia referência ao sacerdote do oráculo de Delfos. O verbo Hermeneuein e o substantivo hermeneia no seu significado mais comum estão associados ao deus-mensageiro-alado Hermes cujo nome é aparentemente derivado por essas palavras, Também vale ressaltar que para Palmer é significativo que Hermes esteja associado a uma função de transmutação, algo que está além da compreensão humana que se transforma em algo que a inteligência é capaz de apreender.
Um dos pontos fundamentais no que se refere à significação de hermeneuein e hermeneia é o trazer uma coisa ou situação da inteligibilidade à compreensão, além disso, os gregos atribuíam a Hermes a descoberta da linguagem e da escrita. Essas duas são as ferramentas que a compreensão humana utiliza para conhecer o significado das coisas e transmitir aos outros. Para Palmer, se for até a raiz grega mais remota, a origem atual das palavras hermenêutica e hermenêutico sugere o processo de compreensão (tornar compreensível). Esse processo está agregado nas três vertentes do significado de hermeneuein e hermeneia no seu antigo uso, que são: dizer, explicar e traduzir.
Para Palmer, hermeneuein como dizer relaciona-se com a função anunciadora de Hermes, já do ponto de vista teológico tem significado uma polêmica no sentido etimológico, por isso é orientado a usar a palavra interpretação como sendo uma forma de dizer. O autor destaca a primeira orientação fundamental de hermeneuein como também o dizer no que se refere a Homero no sentido de um intérprete no significado mais primitivo da palavra. A segunda orientação significativa é explicar e, enfatiza o aspecto discursivo da compreensão, a explicação é um complemento do dizer visto que, as palavras não se limitam a dizer algo, elas
explicam, racionalizam e clarificam algo. Já quanto à terceira orientação é o traduzir e é tão sugestiva para a hermenêutica quanto às outras duas. A tradução é uma maneira especial de tornar compreensível o processo básico da interpretação e torna-nos conscientes da visão globalizante da própria língua e da necessidade da sensibilidade do tradutor.
Segundo Palmer, as definições modernas de hermenêutica são seis e estão divididas da seguinte forma: teológica, filológica, científica, psicológica e uma compreensão original e cultural. Cada uma dessas definições indica um momento ou uma abordagem ao problema da interpretação, um ponto de vista que embasa como a hermenêutica passa a ser vista.
A hermenêutica teológica é talvez o significado mais antigo e difundido da palavra hermenêutica e tem haver com os princípios da interpretação bíblica. É possível perceber que a hermenêutica se diferencia da exegese e enquanto metodologia da interpretação, ela é o sistema que o intérprete tem para encontrar o significado oculto do texto.
No que se refere à hermenêutica como metodologia filológica, ela surgiu no século XVIII com o desenvolvimento do racionalismo e o advento da filologia clássica, teria uma ação profunda sobre a hermenêutica bíblica. E foi a partir daí que os intérpretes racionalistas começaram a tentar ultrapassar antigos preconceitos, a interpretação das escrituras fez surgir técnicas de análises gramaticais bastante polidas.
A hermenêutica científica é caracterizada por Schleiermacher como ciência ou arte da compreensão. Ele procura ir além do conceito de hermenêutica como conjunto de regras e cria uma hermenêutica sistemática coerente.
Sobre a hermenêutica como base metodológica para os (geisteswissenschaften) ou psicológica, Dilthey viu na hermenêutica a matéria principal que embasa os (geisteswissenschaften) e as disciplinas da compreensão da arte, comportamento e escrita do homem. Ele defendia que a interpretação das expressões essenciais da vida humana implica um ato de compreensão histórica em qualquer domínio que seja das ciências humanas.
Quanto à compreensão original e cultural da hermenêutica, compreensão nesse contexto não se refere à ciência ou as regras da interpretação textual, mas a explicação fenomenológica da existência humana. A hermenêutica heideggeriana é relacionada com as dimensões ontológicas da compreensão e ao mesmo tempo com a fenomenologia de Heidegger.
Concluímos falando acerca da hermenêutica no sentido cultural (um sistema de interpretação: recuperação do sentido versus iconoclasta), Paul Ricoeur adota uma hermenêutica centrada na exegese textual que considera o elemento distinto e central da hermenêutica. O estudo de Ricoeur em De I’ Interprétation faz uma distinção entre símbolos
unívocos e equívocos. Em seguida, Palmer fala acerca da análise freudiana de hermenêutica que, segundo ele é iconoclástica. O autor conclui o texto afirmando que, a filosofia hoje já se centra na linguagem e já é de certa forma hermenêutica e, é necessário fazê-la criativamente hermenêutica.
Sebastiana Inácio Lima
Graduada em Licenciatura Plena em Filosofia pela UEPB, Mestranda em Filosofia pela UFPB onde desenvolve projeto em São Tomás de Aquino, na Linha de Pesquisa Lógica e Epistemologia, cursando Bacharel em Teologia no STCNe.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
PALMER, Richard. Hermenêutica. Trad. Port. Maria Luísa Ribeiro Ferreira. Lisboa: 70, 1969.
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