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O Monstruoso Legalismo - Por Karoline Evangelista - Revisado pelo prof. Caio Ferreira


Era uma menina em tenra infância, que não perdia sequer uma programação da igreja. Em casa brincava, como cabe a toda criança tal direito. A sua brincadeira preferida se dava em reunir suas bonecas e imitar a liturgia do culto, tal como aprendeu na igreja. O ursinho marrom era o pastor, as bonecas eram divididas em grupos de senhoras, crianças e havia visitantes também. Oração, louvor, pregação, tudo era reproduzido na brincadeira, representando sua vontade de estar sempre vivenciando as coisas espirituais. E isso se repetiu até que o sermão do pastor não pôde mais ser repetido, pois o mesmo tratava-se de uma proibição às crianças brincarem com bonecas, atribuindo tal brinquedo ao diabo. Com isso ela perdeu as suas bonecas.
Essa menina cresceu e hoje alerta contra o monstruoso legalismo que continua a assustar crianças e adultos por desvirtuar de forma insana a mensagem do Evangelho. Sermões legalistas são pregados por pessoas que negligenciam a seriedade do ensino. É preciso lembrá-los do conselho dado por Tiago, irmão de Jesus: “Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo” (Tg 3:1).
Infelizmente, o legalismo não é hábito apenas dos desprovidos de conhecimento teológico. Grandes mestres com reconhecida formação teológica e admirável serviço a Deus podem assemelhar-se aos escribas em seu exercício de poder sobre os seus liderados. Há casos em que um líder bem intencionado quer proteger o seu liderado vestindo-o de uma pomposa armadura, mas o paralisa e estreita ainda mais o caminho. A armadura de Saul não cabe em Davi (cf. 1 Sm 17.39). Ordens, proibições, regras, rituais que são impostos com as melhores das intensões, se não forem ordens bíblicas serão apenas para perturbação e prejuízo espiritual.
Não permitamos que legalistas nos acertem ao atirar suas flechas com setas afiadas pelo julgo farisaico e nem nos prendam com suas algemas de falsa santidade nos escravizando à sua vontade antibíblica. Se os nossos paletós, saias, cabelos longos, privação de maquiagem e futebol ou mesmo o nosso exemplar comportamento moral, obras de caridade e comprometimento com a igreja local nos garantissem a comunhão com o Santíssimo Deus, então vã seria a cruz de Cristo e seríamos perfeitos o bastante para carecermos da graça de Deus. Porém a Bíblia nos revela que todos pecaram e somente pela graça somos justificados pela redenção que há em Cristo (cf. Rm 3.23-24).
Em sua carta aos colossenses, o apóstolo Paulo denuncia a soberba e inutilidade do legalismo: “Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade” (Cl 2.23). E aos Gálatas ele adverte: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão” (Gl 5.1). Na mesma epístola, Paulo explica que o simples cumprimento de regras traz glória aos méritos humanos e nisso não há valor algum, mas o que importa é ser nova criatura e gloriar-se na cruz de Cristo, pois somente pelos méritos de Jesus nós somos salvos (cf. Gl 6.12-17).
O benquisto pregador Hernandes Dias Lopes em seu texto “Legalismo, um caldo mortífero” reconhece que “O Legalismo veste-se com uma capa de ortodoxia, mas em última análise, não é a verdade de Deus que defende, mas seu tradicionalismo conveniente”.1 O diabo é o grande interessado em acusar o crente, mas nós podemos contar com  defesa do Deus-Homem. O pregador Paul Washer escreve primorosamente sobre isso:
“Nessa vida, o diabo constantemente difama e acusa os cristãos, mas Cristo leva a defesa do crente diante do trono de Deus. É importante notar que essa defesa não se baseia na inocência ou no mérito do crente nem na credibilidade da acusação do diabo. Se assim fosse, essa defesa poderia falhar, pois somos frequentemente culpados e o diabo está frequentemente certo em sua acusação contra nós. Em vez disso, nossa defesa se baseia na obra perfeita e imutável de Cristo em favor do crente”.2

Apesar de extensa, considero pertinente citar o que descreve Wayne Grudem em sua Teologia Sistemática:
Com respeito à vida cristã, a suficiência das Escrituras nos lembra de que não existe pecado que não seja proibido pelas Escrituras, quer explícita quer implicitamente. Andar na lei do Senhor é ser “irrepreensível” (Sl 119.1). Portanto, não devemos acrescentar proibições àquelas já afirmadas nas Escrituras. De tempos em tempos podem surgir situações em que seja errado, por exemplo, que um cristão beba café ou Coca-Cola, ou assista a um filme no cinema, ou coma carne oferecida a ídolo (ver 1Co 8-10), mas a menos que se possa provar que algum ensino específico ou algum princípio bíblico geral proíba tais coisas (ou quaisquer outras atividades) a todos os crentes de todos os tempos, devemos insistir em que essas atividades não são em si pecaminosas nem estão em todas as situações proibidas por Deus ao seu povo. Esse também é um princípio importante, porque entre os crentes sempre existe a tendência de começar a negligenciar o estudo regular e cotidiano as Escrituras em busca de orientação, passando a viver segundo um conjunto de regras escritas ou não (as tradições denominacionais) relativas àquilo que o cristão deve ou não fazer. Além do mais, sempre que fazemos acréscimos à lista de pecados proibidos pelas Escrituras, a igreja e os crentes saem prejudicados. O Espírito Santo não encorajará obediência a regras que não tenham a aprovação de Deus pelas Escrituras, tampouco os crentes em geral terão prazer em obedecer a ordens que não estejam de acordo com as leis de Deus gravadas no coração de cada um deles. Em alguns casos, os cristãos podem repetida e sinceramente rogar a Deus “vitória” sobre supostos pecados que na verdade não são definitivamente pecados, e assim vitória nenhuma irá, pois a atitude ou o ato em questão não é de fato pecado nem desagrada a Deus. Consequentemente, poderá haver grande desânimo na oração e frustração na vida cristã em geral. Em outros casos, resultará desobediência continuada e mesmo crescente a esses novos “pecados”, juntamente com um falso sentimento de culpa e um consequente afastamento de Deus. Muitas vezes surge uma insistência cada vez mais intolerante e legalista nessas novas regras da parte daqueles que realmente as seguem, provocando o desaparecimento da genuína fraternidade entre os crentes da igreja. A evangelização muitas vezes se verá sufocada, pois a proclamação tácita do evangelho que vem da vida dos crentes parecerá pelo menos (para os de fora) incluir a exigência adicional de que o cristão se enquadre nesse modelo uniforme de vida para tornar-se membro do corpo de Cristo.3

Finalizo com um conselho confortante do pastor John MacArthur:
“Não se intimide pelas expectativas legalistas e superficiais da parte de outras pessoas. Deixe que seu comportamento seja o resultado do seu amor a Cristo e das santas aspirações produzidas em você pela habitação do Espírito e pela presença permanente da sua palavra (cf. Cl 3.16)”.4

Se você foi regenerado pelo doce Espírito Santo, desate o nó da gravata que te sufoca e respire a paz que essa nova vida trás em Cristo Jesus. Uma vida de liberdade do domínio do pecado e da condenação. Respire a suavidade e a leveza de um coração que bate mansamente (cf Mt 11.29-30). Acalme a alma no descanso dos braços do pastor que te faz deitar em verdes pastos e te guia a águas tranquilas (cf. Sl 23.2). Certamente que a bondade e a misericórdia te seguirão todos os dias (cf. 23.6). Abrace a graça que te abraçou.

Referências Bibliográficas
2 Washer, Paul. O poder do Evangelho e sua mensagem. São José dos Campos: Editora Fiel, 2013, p.270
3 Grudem, Wayne. A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p.91
4 MacArthur, John. F. Nossa suficiência em Cristo. São José dos Campos: Editora Fiel, 1995, p. 168-169.



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