Era uma menina em tenra infância, que não perdia sequer uma programação da igreja. Em casa brincava, como cabe a toda criança tal direito. A sua brincadeira preferida se dava em reunir suas bonecas e imitar a liturgia do culto, tal como aprendeu na igreja. O ursinho marrom era o pastor, as bonecas eram divididas em grupos de senhoras, crianças e havia visitantes também. Oração, louvor, pregação, tudo era reproduzido na brincadeira, representando sua vontade de estar sempre vivenciando as coisas espirituais. E isso se repetiu até que o sermão do pastor não pôde mais ser repetido, pois o mesmo tratava-se de uma proibição às crianças brincarem com bonecas, atribuindo tal brinquedo ao diabo. Com isso ela perdeu as suas bonecas.
Essa
menina cresceu e hoje alerta contra o monstruoso legalismo que continua a
assustar crianças e adultos por desvirtuar de forma insana a mensagem do Evangelho.
Sermões legalistas são pregados por pessoas que negligenciam a seriedade do
ensino. É preciso lembrá-los do conselho dado por Tiago, irmão de Jesus: “Meus
irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro
juízo” (Tg 3:1).
Infelizmente,
o legalismo não é hábito apenas dos desprovidos de conhecimento teológico.
Grandes mestres com reconhecida formação teológica e admirável serviço a Deus
podem assemelhar-se aos escribas em seu exercício de poder sobre os seus
liderados. Há casos em que um líder bem intencionado quer proteger o seu
liderado vestindo-o de uma pomposa armadura, mas o paralisa e estreita ainda
mais o caminho. A armadura de Saul não cabe em Davi (cf. 1 Sm 17.39). Ordens, proibições, regras, rituais que são
impostos com as melhores das intensões, se não forem ordens bíblicas serão
apenas para perturbação e prejuízo espiritual.
Não
permitamos que legalistas nos acertem ao atirar suas flechas com setas afiadas
pelo julgo farisaico e nem nos prendam com suas algemas de falsa santidade nos
escravizando à sua vontade antibíblica. Se os nossos paletós, saias, cabelos
longos, privação de maquiagem e futebol ou mesmo o nosso exemplar comportamento
moral, obras de caridade e comprometimento com a igreja local nos garantissem a
comunhão com o Santíssimo Deus, então vã seria a cruz de Cristo e seríamos
perfeitos o bastante para carecermos da graça de Deus. Porém a Bíblia nos
revela que todos pecaram e somente pela graça somos justificados pela redenção
que há em Cristo (cf. Rm 3.23-24).
Em
sua carta aos colossenses, o apóstolo Paulo denuncia a soberba e inutilidade do
legalismo: “Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de
si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor
algum contra a sensualidade” (Cl 2.23). E aos Gálatas ele adverte: “Foi para a
liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem
submeter novamente a um jugo de escravidão” (Gl 5.1). Na mesma epístola, Paulo
explica que o simples cumprimento de regras traz glória aos méritos humanos e
nisso não há valor algum, mas o que importa é ser nova criatura e gloriar-se na
cruz de Cristo, pois somente pelos méritos de Jesus nós somos salvos (cf. Gl
6.12-17).
O benquisto pregador Hernandes Dias Lopes em seu texto
“Legalismo, um caldo mortífero” reconhece que “O Legalismo veste-se com uma
capa de ortodoxia, mas em última análise, não é a verdade de Deus que defende,
mas seu tradicionalismo conveniente”.1 O
diabo é o grande interessado em acusar o crente, mas nós podemos contar
com defesa do Deus-Homem. O pregador
Paul Washer escreve primorosamente sobre isso:
“Nessa vida, o diabo constantemente
difama e acusa os cristãos, mas Cristo leva a defesa do crente diante do trono
de Deus. É importante notar que essa defesa não se baseia na inocência ou no
mérito do crente nem na credibilidade da acusação do diabo. Se assim fosse,
essa defesa poderia falhar, pois somos frequentemente culpados e o diabo está
frequentemente certo em sua acusação contra nós. Em vez disso, nossa defesa se
baseia na obra perfeita e imutável de Cristo em favor do crente”.2
Apesar
de extensa, considero pertinente citar o que descreve Wayne Grudem em sua
Teologia Sistemática:
Com respeito à vida cristã, a
suficiência das Escrituras nos lembra de que não existe pecado que não seja
proibido pelas Escrituras, quer explícita quer implicitamente. Andar na lei do
Senhor é ser “irrepreensível” (Sl 119.1). Portanto, não devemos acrescentar proibições àquelas já afirmadas nas Escrituras.
De tempos em tempos podem surgir situações em que seja errado, por exemplo,
que um cristão beba café ou Coca-Cola, ou assista a um filme no cinema, ou coma
carne oferecida a ídolo (ver 1Co 8-10), mas a menos que se possa provar que
algum ensino específico ou algum princípio bíblico geral proíba tais coisas (ou
quaisquer outras atividades) a todos os crentes de todos os tempos, devemos
insistir em que essas atividades não são em si pecaminosas nem estão em todas
as situações proibidas por Deus ao seu povo. Esse também é um princípio
importante, porque entre os crentes sempre existe a tendência de começar a
negligenciar o estudo regular e cotidiano as Escrituras em busca de orientação,
passando a viver segundo um conjunto de regras escritas ou não (as tradições
denominacionais) relativas àquilo que o cristão deve ou não fazer. Além do
mais, sempre que fazemos acréscimos à lista de pecados proibidos pelas
Escrituras, a igreja e os crentes saem prejudicados. O Espírito Santo não
encorajará obediência a regras que não tenham a aprovação de Deus pelas
Escrituras, tampouco os crentes em geral terão prazer em obedecer a ordens que
não estejam de acordo com as leis de Deus gravadas no coração de cada um deles.
Em alguns casos, os cristãos podem repetida e sinceramente rogar a Deus
“vitória” sobre supostos pecados que na verdade não são definitivamente
pecados, e assim vitória nenhuma irá, pois a atitude ou o ato em questão não é
de fato pecado nem desagrada a Deus. Consequentemente, poderá haver grande
desânimo na oração e frustração na vida cristã em geral. Em outros casos,
resultará desobediência continuada e mesmo crescente a esses novos “pecados”,
juntamente com um falso sentimento de culpa e um consequente afastamento de
Deus. Muitas vezes surge uma insistência cada vez mais intolerante e legalista
nessas novas regras da parte daqueles que realmente as seguem, provocando o
desaparecimento da genuína fraternidade entre os crentes da igreja. A
evangelização muitas vezes se verá sufocada, pois a proclamação tácita do
evangelho que vem da vida dos crentes parecerá pelo menos (para os de fora)
incluir a exigência adicional de que o cristão se enquadre nesse modelo
uniforme de vida para tornar-se membro do corpo de Cristo.3
Finalizo
com um conselho confortante do pastor John MacArthur:
“Não se intimide pelas expectativas
legalistas e superficiais da parte de outras pessoas. Deixe que seu comportamento
seja o resultado do seu amor a Cristo e das santas aspirações produzidas em
você pela habitação do Espírito e pela presença permanente da sua palavra (cf.
Cl 3.16)”.4
Se
você foi regenerado pelo doce Espírito Santo, desate o nó da gravata que te
sufoca e respire a paz que essa nova vida trás em Cristo Jesus. Uma vida de
liberdade do domínio do pecado e da condenação. Respire a suavidade e a leveza
de um coração que bate mansamente (cf Mt 11.29-30). Acalme a alma no descanso
dos braços do pastor que te faz deitar em verdes pastos e te guia a águas
tranquilas (cf. Sl 23.2). Certamente que a bondade e a misericórdia te seguirão
todos os dias (cf. 23.6). Abrace a graça que te abraçou.
Referências
Bibliográficas
2 Washer,
Paul. O poder do Evangelho e sua mensagem. São José dos Campos: Editora Fiel,
2013, p.270
3 Grudem,
Wayne. A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p.91
4 MacArthur, John. F. Nossa
suficiência em Cristo. São José dos Campos: Editora Fiel, 1995, p. 168-169.


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