Introdução
“Porque este Melquisedeque, que era rei de
Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, e que saiu ao encontro de Abraão quando ele
regressava da matança dos reis, e o abençoou; a quem também Abraão deu o dízimo
de tudo, e primeiramente é, por interpretação, rei de justiça, e depois também
rei de Salém, que é rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo
princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus,
permanece sacerdote para sempre”. (Hebreus 7:1-3).
1. Qual
o Enigma deste Personagem?
Um estudo cuidadoso deste personagem
bíblico nos esclarecerá que nada existe de misterioso a seu respeito, a
despeito da interpretação de alguns quanto a Hebreus 7:3. A palavra em hebraico Malkicedeq, significa rei de justiça, ou ainda, de acordo com Hebreus 7:2, rei de Salém, isto
é, rei de paz. O
nome Melquisedeque aparece dez vezes na Bíblia, sendo duas no Velho Testamento (Gênesis
14:18; Salmos 110:4); e oito no livro de Hebreus (5:6, 10; 6:20; 7:1, 10,11, 15, 17). Após a entrada do Pecado o indivíduo
tornou-se sacerdote de si mesmo. Depois este encargo coube ao primogênito.
Posteriormente a tribo de Levi foi escolhida para este mister. Quem não fosse
da Tribo de Levi era indigno para este mister como vemos em Esdras 2.62. O relato desta
passagem deve ser lembrado para melhor compreensão deste assunto. O sacerdote
devia ser tirado dentre os homens, com suas fraquezas, para que pudesse
entender as fraquezas dos homens (Hebreus
4:14-16).
Sacerdote é a pessoa que atua como
mediador ou intermediário entre duas partes. Aquele que está encarregado de uma missão
respeitável, o intercessor perante Deus a favor dos homens. O Novo Comentário da Bíblia, editado em
português por Russell P. Shedd, vol. 3, pág. 1357, afirma o seguinte:
Sumo sacerdote é aquele que é nomeado para agir em prol
dos homens naquilo que diz referência a Deus, especialmente para apresentar
ofertas a Deus. O sumo sacerdote deve ser escolhido dentre os homens e ser
capaz de, na qualidade de verdadeiro homem, simpatizar com as fraquezas
humanas. Além disso, ele não deve presumir em tomar sobre si mesmo tal ofício;
deve ter sido chamado para tal tarefa por nomeação de Deus. Tudo isso (em ordem
reversa) é declarado como cumprido na pessoa de Cristo; conforme o escritor
sagrado considera Sua nomeação divina, Sua perfeita humanidade e consequente
habilidade de simpatizar conosco, e Seu ofício e obra. Pois foi Deus quem, ao
ressuscitá-lo de entre os mortos, reconheceu-o como Seu Filho, declarando
abertamente a Sua nomeação para um sacerdócio eterno, segundo uma classificação
diferente daquela de Arão, a ordem de Melquisedeque.
As Escrituras nos informam que há dois
tipos de sacerdócio: primeiro
Levítico, hereditário, e extinto com a morte de Cristo, e o segundo
Melquisedeque, prefigurando o sacerdócio
de Cristo, caracterizado por sua superioridade e eternidade. Cristo apresenta
um contraste com os sumos sacerdotes segundo a ordem levítica, que eram
instalados no ofício para posteriormente serem removidos por motivo de
falecimento. Por isso é que Ele se tornou sumo sacerdote para sempre. É
justamente essa qualidade eterna que distingue a ordem sacerdotal de
Melquisedeque da ordem levítica de Arão.
2. Que sabemos de Melquisedeque?
Através dos tempos tem havido muita
discussão, procurando identificar quem foi Melquisedeque. As referências
bíblicas para sua identificação são muito escassas. Aparece numa citação
ligeira em Gênesis
14:18. Creem os estudiosos que ele era rei de algum clã semita ou de Salém.
Sabe-se que era sacerdote e rei. Cristo também é sacerdote e rei, de onde ser
Melquisedeque considerado uma figura de Cristo. Por ser “sacerdote do Deus
altíssimo” no tempo de Abraão, este lhe devolveu o dízimo. Tem sido assunto de
grandes investigações entre os comentaristas o saber quem era realmente
Melquisedeque. Defendem alguns ter sido Cristo; supõem outros que fosse o
Espírito Santo; ainda outros sustentam que era um anjo ou Enoque. Não há
necessidade de contestar cada uma destas suposições, mas apenas dizer o
seguinte: Melquisedeque não era Cristo. Melquisedeque não podia ser o Espírito
Santo, visto que o Espírito Santo não foi tirado dentre os homens. “Sem pai, sem mãe”. Esta afirmativa é que tem
dado motivo para defenderem que fosse um rei sobrenatural. A opinião mais
sensata é provável que não se encontrou nenhum registro genealógico, mas é
considerado um rei, justo e pacífico, adorador e sacerdote do Deus altíssimo na
terra de Canaã, amigo de Abraão, e como sacerdote superior a ele em dignidade.
A Bíblia nos apresenta a superioridade do
sacerdócio de Melquisedeque sobre o sacerdócio levítico, por isso um
significativo símbolo do sacerdócio de Cristo.
Russell Norman
Champlin afirmou:
“Hermeneuticamente,
Melquisedeque importante porque ilustra diversas coisas:
1) Um significado mais profundo
da história;
2) Como a história pode ser
profética e simbólica;
3) A unidade do Antigo e do
Novo Testamento.
_____________________________________________
Russell Norman ChamplinO Novo Testamento Interpretado Versículo por
Versículo. Vol. 5,
pág. 527).
4) A universalidade do ofício
messiânico e sumo sacerdotal de Cristo;
5) A ab-rogação das ordens
sacerdotais do Antigo Testamento,
por estarem todas cumpridas em Cristo” (O
Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 5, pág. 527).
Salmos 110:4 nos ensina que o Messias seria um sacerdote
divinamente nomeado, de acordo com a classificação de Melquisedeque. Essa
afirmação bíblica sobre a necessidade de uma nova ordem sacerdotal é uma
indicação de que a ordem levítica havia fracassado e uma melhor ordem de coisas
devia levantar-se de acordo com Hebreus
7. Pelo fato dos judeus rejeitarem a Cristo, não O aceitavam como sacerdote, então
o escritor aos Hebreus
diz aos judeus: qual a razão de vocês não aceitarem a Cristo como sacerdote, se
Abraão considerado tão grande por vocês aceitou a Melquisedeque como sacerdote,
não sendo ele da tribo de Levi? É do conhecimento de todos que os sacerdotes
tinham que ser da tribo de Levi, mas que Cristo pertencia a tribo de Judá
(“tribo à qual Moisés nunca atribuiu sacerdotes” – Hebreus 7:14).
A declaração de Hebreus 7:3 – “sem pai, sem
mãe, sem genealogia; que não teve princípio de dias, nem fim de existência”
deve ser compreendida como significando que estas informações genealógicas não
estavam registradas em cartório. Este aspecto da vida de Melquisedeque deve ser
destacado: o livro de Gênesis
nada diz sobre seus antepassados. No Antigo Testamento as genealogias se revestem de grande
importância, particularmente no caso dos sacerdotes. Ele é apresentado como
sacerdote por seu próprio direito, e não por motivo de descendência física.
Semelhantemente não são mencionados nem seu nascimento nem sua morte. Nada é
dito a respeito de seu sucessor. Em tudo isso ele é feito, pelo próprio
silêncio das Escrituras. Se o livro de Gênesis apresenta algumas provas da grandeza de
Melquisedeque, como o fato de ele ter abençoado a Abraão e este lhe devolver o
dízimo, o livro de Hebreus
(cap. 7) salienta a superioridade de Cristo como nosso sumo sacerdote.
3. Profeta
Como Cristo executa o ofício de
Profeta. Na execução do Seu ofício
profético, Cristo nos é revelado:
a) Como o verbo
eterno, o LOGOS, o Jeová manifestado e manifestante. Ele é a fonte de todo conhecimento para o universo
inteligente, e especialmente para os
filhos dos homens. Ele era e é a luz do mundo. Ele é a verdade. Nele
moram todos os tesouros da sabedoria e
do conhecimento; Ele irradia toda a luz que os
homens recebem ou alcançam. (O
Verbo Criador – A Expressão exata
do seu ser ).
b) Isto, embora
independente de Sua obra oficial como profeta na economia da redenção, é Seu fundamento necessário. Se Ele
não possuísse a plenitude da sabedoria
divina, não poderia ser a fonte de conhecimento, e especialmente daquele conhecimento que é vida eterna para
Seu povo. Sob a Antiga Dispensação, ou
antes da Sua vinda na carne, Ele revelou Deus, e Seus propósitos e vontade, não
só mediante manifestações pessoais de Si mesmo aos patriarcas e profetas, mas mediante também
Seu Espírito, na revelação da verdade e
da vontade de Deus, na inspiração dos que foram designados para registrar estas revelações e na iluminação
das mentes de Seu povo, levando-os assim
ao conhecimento salvador da verdade.
c) Enquanto
estava na terra, prosseguiu o exercício de Seu ofício profético mediante Suas instruções pessoais e em Seus
discursos, parábolas e exposição da Lei
e dos profetas; e em tudo que Ele ensinou acerca de Sua própria pessoa e obra, e com respeito ao progresso e
consumação de Seu reino.
d) Desde Sua ascensão,
Ele leva a cabo o mesmo ofício, não só na mais plena revelação do evangelho dada aos apóstolos e
na inspiração dos mesmos como
infalíveis, mas também na instituição dos ministérios e chamando constantemente os homens àquele ofício, e
pela influência do Espírito Santo, que
coopera com a verdade em cada coração humano, e que a faz eficaz para a santificação e salvação de Seu próprio povo.
Assim, desde o princípio, tanto no seu estado de humilhação como de exaltação,
tanto antes como depois de Sua vinda na
carne, Cristo executa o ofício de profeta ao revelar-nos mediante Sua Palavra e
Espírito a vontade de Deus para nossa salvação.
Revista os Puritanos – (Hodge).
O
tríplice ofício de Cristo (“Munus triplex”), o qual ele exerceu tanto em seu
estado de humilhação como no de exaltação, está figurado no Antigo Testamento
nos ofícios profético, sacerdotal e real
– os ofícios que eram consagrados através de unção (sendo “ungido” o
significado do termo grego “Cristo” e hebraico “Messias”). Como Profeta, ele
nos revela a vontade e a pessoa de Deus. Como Sacerdote, ele é nosso mediador
diante de Deus, oferecendo a si mesmo, uma só vez, em sacrifício para
satisfazer a justiça divina e nos reconciliar com o Pai e vivendo sempre para
interceder por aqueles que se achegam a Deus. Como Rei, ele governa como o
vice-regente do Pai sobre o mundo, protege o seu povo e conquista sobre seus
inimigos. Ressalta-se que, apesar de vermos tais sombras no Antigo Testamento,
não devemos supor que Deus se aproveitou “a posteriori” desses ofícios para
ilustrar a obra messiânica, mas que foram decretados antes da fundação do mundo
para nos revelar o Cristo. Primeiro vem a realidade eterna do Filho, depois os
ofícios terrenos. Ele é o Logos, o Cordeiro que foi morto e o braço direito do
Pai antes da fundação do mundo. Ademais, encontramos esse tríplice ofício em
todas as Escrituras.
4. Em Gênesis, Cristo é como
·
Profeta: a Palavra
criadora do Pai (1.3; cf. Jo 1.1-4; Cl 1.16) e o Anjo do Senhor que traz a
revelação da vontade e da aliança de Deus (16.7; 31.11-13; cf. 2 Co 1.20)
·
Sacerdote: o
sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (14.17-20; cf. Hb 7.17, 22, 24-25),
o descendente mediador das bênçãos para todas as famílias da terra (12.1-3, 7;
13.15; 24.7; cf. Gl 3.1-16) e o substituto provido por Deus para ser
sacrificado no lugar da descendência de Abraão (Gn 22.13-14; cf. Jo 3.17 e Hb
2.16)
·
Rei: o Descendente
de Judá de quem o cetro jamais se apartará (49.10; cf. Ap 5.5 e Hb 1.8) e que
pisa sobre a cabeça da serpente (3.15 ; cf. Cl 2.15).
E em
Apocalipse, ele é como
·
Profeta: a
testemunha fiel (1.5) que traz revelação, a qual Deus lhe deu para mostrar aos
seus servos o que em breve há de acontecer (1.1) e que é digna de abrir os sete
selos da revelação do juízo de Deus (6.1).
·
Sacerdote: o
Cordeiro que foi morto (5.11) e que, por meio de seu sangue, liberta (1.5) e
compra para Deus gente de toda tribo, língua, povo e nação (5.9).
·
Rei: o vitorioso
Leão da Tribo de Judá, a Raiz de Davi (5.11) e o soberano dos reis da terra
(1.5), que possui, reina e governa com cetro de ferro sobre o reino do mundo
(2.27; 11.15) e que julga e guerreia com justiça (19.11).
Por fim,
por estarmos unidos em Cristo, o tríplice ofício de Cristo tem duas
implicações. A primeira é aquilo que ele realiza por nós em cada um deles,
conforme descrito acima. A segunda, e muitas vezes negligenciadas, é que somos
chamados a sermos à imagem do Filho (com as devidas limitações observadas).
Somos chamados como:
·
Profetas: a
ensinarmos tudo aquilo que Deus falou através do Filho nos últimos tempos (Mt
28.18-20), proclamando a mensagem de juízo e salvação do evangelho (Mc 16.15;
Rm 2.16; 2Co 2.14-17) e sendo, como igreja, coluna e firmeza da verdade (1 Tm
3.15).
·
Sacerdotes: a
cuidarmos um dos outros (Hb 3.13; 10.25) e intercedermos um pelos outros e pelo
mundo (Ef 6.18; 1 Ts 5.17; 1Tm 2.1-4), vivendo como um reino sacerdotal (Ex
19.6; 1 Pe 2.9; Ap 5.10).
·
Reis: a levarmos
todo pensamento cativo a Cristo (2Co 2.15) e os povos à obediência ao Rei dos
reis (Mt 28.18-20; Rm 18.15) e a vivermos como reino sacerdotal (Ex 19.6; 1 Pe
2.9; Ap 5.10), na certeza de que um dia pisaremos sobre a cabeça de Satanás (Rm
16.20), julgaremos os anjos e o mundo (1Co 6.2-3) e nos assentaremos no trono
de Cristo (Ap 3.21).
5. Um
reinado prometido.
Segundo Charles Ryrie, o conceito de
Cristo como rei pode ser resumido em cinco palavras: prometido, profetizado,
anunciado, rejeitado e cumprido. Deus prometeu que a dinastia de Davi reinaria
para sempre (1 Rs 2.5). Isaías profetizou que uma criança nasceria e estabeleceria o trono de Davi (Is
9.7). O anjo Gabriel anunciou a Maria que seu filho receberia o trono de Davi e
reinaria sobre Jacó (Lc 1.32,33). Embora houvesse quem não reconhecesse esse
reinado, o próprio Jesus, ao entrar em Jerusalém, foi saudado pelo povo, em
alta voz: “Bendito é o Rei que vem em nome do Senhor” (Lc 19.38; leia também
Mt. 21.4-5)!
6. Um
reinado espiritual.
Cristo governa sua igreja e seu objetivo é conduzi-la à salvação
final. Além disso, Ele não emprega em seu reinado a força ou elementos bélicos
- ao contrário, conduz seu povo por meio da palavra e do Espírito. A palavra
“cabeça”, aplicada a Cristo em 1 Co 11.3 e Ef 5.23, é praticamente o
equivalente a rei. Louis Berkhof salienta que, neste caso, o termo cabeça é
usado num sentido figurado, para se referir a alguém que é revestido de
autoridade. Portanto, pelo fato de Cristo ser o cabeça da igreja, ele reina
espiritualmente sobre seu povo.
7. Um
reinado universal.
O reinado de Cristo
não se restringe
apenas ao seu povo. Ele reina sobre todo o universo (Mt 28.18). Em seu
reinado universal, ele protege seu povo dos perigos aos quais está exposto. Ele
domina sobre todos os poderes, para que assim possa proteger seu povo de todas
as artimanhas das trevas. Nesse sentido, a igreja poderá ser perseguida, porém
jamais destruída, uma vez que as artimanhas do mundo nunca frustrarão os
propósitos do Senhor.
Conclusão
Além de sacerdote e profeta, Cristo
também é rei. Dentre algumas das características deste reinado, é fato que ele
foi anunciado desde o AT. Além disso, esse reinado é espiritual e universal.
Diante dessa realidade, cabe ao homem não pedir para que Cristo reine, antes o reconheça como tal.
REFERÊNCIAS
BERKHOF, Louis. Teologia
Sistemática, pág 348
CHAMPLIN, Russell Norman O Novo Testamento Interpretado Versículo por
Versículo. Vol. 5. p. 527)
SHEDD, Russell P. Novo Comentário da Bíblia, editado em
português - vol. 3, pág. 1357
Sites:
https://www.youtube.com/watch?v=k5nB54mc5ko - 18/09/09/2017
https://www.estudosdabiblia.net/bd13_03.htm
1 – 19/09/2017
escola dominical.assembleia.org.br/untitled-7 20/09/2017


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