Vivemos em um mundo em que as pessoas estão ávidas (desejosas) por projeção, destaque e valor. Para isso são capazes de criar diversos artifícios e se submeter a várias situações para conseguir essa projeção. Não importa qual seja o contexto, iremos encontrar essa vontade alucinante do homem na busca pela sua própria glória e personalidade.
Ao longo da história do Cristianismo encontramos diversas pessoas que cultivaram sua própria arrogância de forma doentia e até cruel. A exemplo de imperadores como Domiciano, Marco Aurélio, Nero, o líder Nazista do século passado Hitler, etc. Mas, não somente ímpios e grandes líderes tem essa prerrogativa, existem cristãos que de tanto cultivarem o próprio ego e a própria personalidade, acabam por decair na fé e tornarem-se cheios de vaidade e arrogância, totalmente abomináveis.
Diante disso, iremos compreender como podemos nos gloriar somente na cruz de Cristo. Essa reflexão se apóia no texto de Gálatas 6.14-18 e no pequeno comentário de João Calvino intitulado: “Gloriando-se somente na cruz de Cristo”.
1. AS POSIÇÕES HUMANAS E A VAIDADE
A vaidade humana carrega de significado alguns títulos e honras e enganam até aqueles que buscam uma vida piedosa, o pecado que incorreu os nossos primeiros pais Adão e Eva e qua ainda habita no nosso enganoso coração, sempre nos afeta e tendemos a trocar a glória de Cristo para buscar a nossa própria glória, queremos ser “os reis da civilização do eu” como enfatiza o comentador das lições da EBD (Em Busca de Algo Maior: como viver para a glória de Deus), baseadas no pensamento de Paull Trip. Para ele as características da civilização do eu são quatro: autossuficiência, autojustiça, autossatisfação e autoglorificação.
Na autossuficiência sou acometido de um pensamento de poder diante da vida e não reconheço a minha carência da graça de Deus nem a minha fraqueza espiritual, cultivo uma pose e falo sobre virtudes inexistentes em mim para passar piedosa sem que eu seja, é o chamado charlatanismo itinerante.
Na autojustiça eu só enxergo os erros e os defeitos alheios e me considero melhor e exagero na enumeração das minhas qualidades, me cega de quem eu realmente sou e me faz enxergar o pecado do outro mais do que os meus próprios.
Na autossatisfação buscamos satisfazer todas as nossas vontades e substituímos o amor a Deus pelo amor ao dinheiro e as coisas passageiras.
Na autoglorificação é possível que mesmo exercendo ministérios dentro da igreja a pessoa possa estar e vivendo para a própria glorificação. Queremos ser notados na ilusão de que assim seremos amados.
Todas essas características nós esboçamos em algum momento da vida e se não for o Senhor Jesus na nossa vida seremos engolidos pelo nosso próprio senhorio e esquecemo-nos de viver para a glória de Deus, nos afastamos de uma vida piedosa e passamos a viver em função da nossa própria personalidade.
2. REJEITAR A PUREZA DO EVANGELHO
[...] eles desejam ser estimados e altamente creditados, e porque é tudo a mesma coisa para eles, visto que traem a pureza do evangelho, desde que possam permanecer isentos de perseguição. O que é que os motiva, senão o fato de que eles desejam ser valorizados e adquirir uma boa reputação? Agora, o Diabo, que tem estimulado esse tipo de conflito desde os dias de Paulo, continua até hoje, e, portanto, precisamos nos armar com esta doutrina. O melhor remédio é o que Paulo propõe aqui: que rejeitemos toda glória, salvo a que há na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo. (p. 4)
a) O que somos capazes de fazer para sermos isentos de perseguição?
Trair a pureza do evangelho, negociar princípios, por causa da necessidade da aprovação popular, a avidez para ser valorizado e ter uma reputação de acordo com os padrões sociais defendidos pela maioria. Para isso a solução é apontada pelo apóstolo Paulo, “precisamos rejeitar toda glória, menos a que há na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo”.
b) Mas como fazer isso?
Mortificar os nossos próprios interesses e considerar que todas as aptidões, dons, talentos, desenvolvimento e sucesso que possamos alcançar somente é possível porque:
[...] está escrito que toda a sabedoria que os homens crêem possuir não é nada, e não será tida em consideração; ela deve ser extinta, para que possamos recorrer a Deus, como Aquele que tem toda a abundância de coisas boas em Si mesmo (Isaías 29:14; 1 Coríntios 1:19). Reconheçamos, eu digo que toda a sabedoria procede de Sua livre graça, de modo que somos iluminados pelo Espírito Santo, e, estando fracos, fortalecidos pela Sua força. Estando cheios de contaminação e de iniquidade, a justiça pode ser restaurada em nós de acordo com o Seu dom. (p. 4-5)
O problema é que nós não queremos fazer isso, não nos dispomos a colocar os nossos interesses depois dos do Senhor e sofremos pensando que podemos subsistir sozinhos nos nossos próprios caminhos.
3. SE GLORIAR NA CRUZ
Enquanto os judaizantes se gabavam da circuncisão Paulo se alegrava por um Salvador crucificado e ressureto, a cruz era mais do que apenas um pedaço de madeira, ela representava muito mais para Paulo. Vejamos o porque:
3.1. Ele conhecia a pessoa da cruz - Cristo tornava a cruz gloriosa, enquanto que os legalistas judaizantes se gabavam de seus ritos.
3.2. Conhecia o poder da cruz - Para Paulo, a cruz representava liberdade: de si mesmo (GI 2:20), da carne (GI 5:24) e do mundo (GI6:14). Na morte e ressurreição de Cristo, o poder de Deus é liberado de modo a conceder livramento e vitória para aqueles que crêem. Ao nos entregarmos a Cristo, temos vitória sobre o mundo e a carne. Por certo, a Lei não é capaz de dar poder algum ao homem para vencer o próprio ego, a carne e a Lei.
3.3. Conhecia o propósito da cruz - Um dos propósitos da cruz era dar origem à "nova criatura" (GI 6:15), que diz respeito à Igreja, o corpo de Cristo. A "velha criatura" remete a Adão e a seu fracasso. A nova criatura é associada a Cristo e será bem sucedida.
Para Calvino é necessário:
[...] livrar-nos de todo o orgulho e presunção, e sentir tanta vergonha, de forma que não tenhamos descanso, até que encontremos alívio no Senhor Jesus Cristo. Que possamos abrir nossos olhos para ver a nossa depravação e sentir vergonha dela, e não somente isso, mas também reconhecer que esta vida não é nada, e que Deus nos colocou aqui como em uma peregrinação, para que Ele possa testar se estamos ou não seguindo-O. Que cada um de nós, pois, venha, de manhã e à noite, a considerar os nossos pecados, e que eles possam ser como aguilhões a nos aferroar e encorajar a nos achegarmos a Deus. Não podemos ser como os animais irracionais, amarrados a este mundo, mas que nossa necessidade nos conduza a vir ao Senhor Jesus Cristo. Isto é o que significa gloriar-se na cruz do Senhor Jesus Cristo. (p.6)
4. SABER QUEM SOMOS
Somos pecadores que fomos salvos do inferno e o preço foi pago por Cristo. Não há nenhum mérito em nós, não fizemos nada para merecer a graça.
Enquanto estivermos nos gloriando fora da cruz de Cristo estaremos amarrados ao mundo e confusos dentro de nós mesmos, “e desejam ter uma posição de alguma autoridade, e serem importantes, e que solicitam ser tidos em honra e ser promovidos, em outras palavras, aqueles que estão distraídos aqui, ali e em todos os lugares por seus desejos, certamente ainda não conhecem o que é gloriar-se na cruz de Jesus Cristo, pois eles começam no ponto errado”. (p. 6)
Aquele que reconhece a sua vergonha e desonra, certamente, procura remediá-las, sendo um salvo em que o Espírito de Deus está operando dentro dele. Aprendamos a examinar a nós mesmos com sinceridade, sem lisonja, e quando reconhecermos nossa pobreza e miséria, venhamos ao Senhor Jesus Cristo. Uma vez que, por meio da cruz, toda arrogância, autoestima e jactância é abatida.
Em Filipenses 3.4-6 “Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu; Segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível”.
No Comentário Bíblico Expositivos ao Novo Testamento de Wiersbe ele afirma que:
[...] mas depois de se tornar cristão, sua marca de identificação mudou. O apóstolo passou a se gloriar nas cicatrizes resultantes do sofrimento que havia suportado a serviço de Jesus Cristo. O contraste com o legalista é óbvio: "Os judaizantes desejam marcar a carne de vocês e se gabar disso, mas eu trago em meu corpo as marcas do Senhor Jesus Cristo – para a glória dele". Que repreensão! "Se as 'celebridades religiosas' de vocês têm quaisquer cicatrizes do que sofreram para a glória de Cristo, então que as mostrem. Do contrário, deixem-me em paz!".
Esse texto nos constrange a enxergarmos a nós mesmos como somos de fato, tira-nos a capa de pessoa perfeita e incorruptível que os enganos do Maligno nos contaminam em alguns momentos da nossa vida. Aqui temos um diagnóstico da situação em que estamos e da solução que Cristo Jesus tem para nós. Qual a glória que devemos ousar possuir? Em que tenho me gabado? Será no meu conhecimento, nas virtudes que eu acredito possuir, na minha capacidade de gerenciar meus negócios, nas próprias aptidões?
Como precisamos aprender mais de Deus, e saber que posições humanas não fazem nenhuma diferença espiritual meritória diante de Cristo Jesus, a única coisa que realmente importa é ser uma nova criatura em Cristo, é o tornar-se filho de Deus através do seu sacrifício imerecido. Agora entendemos o quanto precisamos ter uma vida piedosa, vida de oração, de leitura e meditação na palavra de Deus, sem hipocrisia, mas de fato. Diante do diagnóstico da nossa própria vaidade arrogante entendemos o quanto precisamos mudar, procurar buscar alinhar a nossa vida com as verdades da palavra de Deus.
Não dá mais para ler a palavra de Deus como se fosse um livro de auto-ajuda, praticando apenas os passos que me levam a tranqüilidade e ao conforto, é necessário sentir as dores do crescimento espiritual, é necessário sofrer pela causa do evangelho, aprender a ser argüido, reprovado quando errarmos por aqueles que nos amam e querem o nosso bem, é importante entender que o que sabemos e pensamos acerca da palavra de Deus são apenas fagulhas da exata dimensão da sua profundidade.
É interessante descer mais do nosso ego e dar lugar para a palavra de Deus nos transformar, em obediência e submissão. Deixar de parecer espiritual e passar a ser, sem se importar com performances, chega de fazer o tipo, Deus não se deixa escarnecer pela nossa atuação de piedade maquiada. Que o Senhor possa limpar de nós tudo aquilo que tem nos deixado raquíticos espiritualmente, tira essa pose de super humanos, essa auto piedade doentia e insana que nos faz fracos e indigentes quando deveríamos estar frutificando na tua obra!
Que possamos Senhor entender quão grande salvação nos deste e o quanto devemos viver na plenitude da tua graça, tendo uma vida íntegra em gratidão por tudo isso. Que a nossa glória seja na tua cruz, essa cruz que nós merecíamos justamente e o senhor levou por nós somente por nos amar com imenso amor.
REFERÊNCIAS
BÍBLIA, Português. A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição rev. e atualizada no Brasil. Brasília: Sociedade Bíblia do Brasil, 1969.
CALVINO. Gloriando-se Somente na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Tradução de Camila Almeida. 2015, 18 p.
TRIPP, Paul David. Em Busca de Algo Maior: como viver para a glória de Deus. (Texto adaptado).
Wiersbe W. Warren. Comentário Bíblico Expositivo. Novo Testamento Volume I. Comentário. Bíblico. Expositivo. Novo. V O L U M E I.
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